sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Doutrina da Salvação – Parte 1


A doutrina da salvação, na maioria das igrejas evangélicas, nos dias de hoje, é nebulosa ou, em casos piores, é contraditória. A confusão que existe sobre esta doutrina é tremenda...
E essa confusão acontece porque a Doutrina da Salvação trata de muitos tópicos em uma ordem que, muitas vezes, é difícil de acompanhar.
Mesmo que esse assunto contenha aspetos que são impossíveis de entender por completo, convém fazermos um estudo sobre ele, porque quase todos os livros da Bíblia falam da salvação.
O termo teológico deste assunto é soteriologia. Essa doutrina abrange as doutrinas da reprovação, da eleição, da providência, da regeneração, da conversão, da justificação e da santificação entre outras.
Também envolve a necessidade de pregação, de arrependimento e de fé. Inclui até as boas obras e a perseverança dos santos. A salvação não é uma doutrina fácil de entender...
Reparem que a salvação é uma atividade divina, em que participam as três pessoas da trindade, agindo no homem. Porque ela tratar da obra do Senhor que resulta no eterno bem do homem para a glória de Deus, somos incentivados a avançar neste assunto com temor e oração para entendê-la, na forma que é do agrado de Deus.
Que Deus nos guie com entendimento espiritual pelas maravilhas da Sua Palavra, no decorrer deste estudo. Que Deus nos traga a convicção e a compreensão verdadeira, e, pela Bíblia, nos dê um conhecimento profundo de Jesus Cristo (Ef 1:17-23).
1º - O Desígnio da Salvação
Por toda a eternidade, Deus deseja receber toda a glória de tudo que Ele fez, faz e fará ao seu povo. Em Rm 11:36 lemos — Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!
Na realidade a ninguém outro, senão a Deus Todo Poderoso, é devida toda a glória nos céus e na terra. Essa glória não vem de uma necessidade de Deus, pois Ele não necessita de nada.
Em Atos 17:24-25 aprendemos que — O Deus fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais...
Assim, a salvação que Deus nos dá é simplesmente um desejo de Deus e direito particular dos eleitos por Ele. Em 1 Co 1:26-31 lemos — Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.
Nesse sentido, a obediência é abençoada gloriosamente, porque ela glorifica a Deus. Ou seja, pela nossa obediência à Palavra de Deus, o Senhor é glorificado.
Esse é o dever de todo homem. Em Ec 12:13 a Palavra diz — De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem.
A desobediência da lei de Deus é pecado. Esse é o ensinamento de 1 Jo 3:4 que diz — Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei.
E, além disso, é o pecado que provoca a separação eterna da presença de Deus (Gn 2:17; Rom. 6:23). O pecado é uma abominação muito grande, justamente, por não intentar dar glória a Deus (Nm. 20:12,13; 27:14; Dt. 32:51). O pecado é iniqüidade a Deus e de nenhuma maneira é glorioso.
Desde o seu 1º pacto com os homens, Deus requer uma obediência completa. Essa obediência desejada tem a finalidade de glorificar o nome do Senhor.
A maldição no jardim do Éden (Gn. 3:14-19, 22-24) foi expressada porque o homem não colocou o desejo de Deus em primeiro lugar (Gn. 2:17; 3:6).
A destruição da terra pelo Dilúvio, nos dias de Noé, (Gên. 6:5-7) foi anunciada sobre todos os homens por eles servirem a carne e, nisso, não glorificarem a Deus (Mt 24:38).
A história bíblica mostra o povo de Deus sendo castigado repetidas vezes, um castigo que continua até hoje, por uma razão maior: adorar outros Deuses (Jr 44:1-10).
A condição natural do homem é abominável diante de Deus, justamente por ele não ter o temor de Deus diante de seus olhos (Rm 3:18).
A condenação final do homem ímpio será simplesmente em função desse homem não ter Deus nas suas cogitações (Sl 10:4), por desprezar toda a Sua repreensão (Pv 1:30) e por não se arrependerem para dar glória a Deus (Ap 16:9).
Assim, quando chegarmos ao assunto da salvação, não podemos procurar modificar o desígnio eterno de Deus. Na doutrina da salvação, Deus não está procurando dar uma glória ao homem.
A salvação, reparem, trata dos seres humanos e do estado eterno deles, mas isso não quer dizer que Deus não deseja receber a glória desse tratamento.
A salvação tem o propósito de trazer glória eternamente a Deus, e, essa glória na salvação, é por Jesus Cristo para todo o sempre (Rm 16:27; 2 Co 4:6; 1 Pe 5:10).
Assim, esse estudo visa fazer com que entendamos melhor como cada fase da salvação exalta a Cristo desde a eleição que foi feita em Cristo (Ef 1:3,4) até a santificação que traz os eleitos a serem semelhantes a Cristo (1 João 3:2).
Cristo é a semente incorruptível pela qual os salvos são gerados de novo (1 Pe 1:23-25). Cristo é o caminho sem o qual ninguém vai a Deus (João 14:6).
Cristo é a verdade na qual o pecador deve crer para ser salvo (Jo 3:35,36). Não existe uma operação sequer na salvação que não glorifique a Deus pelo Filho unigênito.
Existem muitos erros nas crenças de muitas igrejas e de muitos crentes já neste ponto inicial sobre o propósito da salvação. Muitos querem colocar as bênçãos que o homem recebe pela salvação como sendo os objetivos divinos na salvação.
Mesmo sendo verdade que o novo nascimento realizado na salvação é maior e mais glorioso do que o primeiro nascimento; mesmo sendo verdade que a salvação é de uma condenação horrível; mesmo sendo verdade que pela obra de Cristo, na salvação, Satanás foi vencido e, mesmo que pela salvação as nossa moradas celestiais estejam sendo construídas no céu; todas estas verdades são resultados da salvação, e NÃO as causas dela.
Muitos confundem o eterno lar, o fruto do Espírito Santo, a vida cristã diante do mundo, ou a igreja cheia de alegria, como desígnios da salvação.
Mas, o estado final da salvação NÃO deve ser confundido com o objetivo dela, nem os efeitos dela com as causas. Deus não tem propósito de dar a sua glória ao outro ser, inanimado, animado ou mesmo um salvo, mas, somente a Ele (Is 42:8).
Como em tudo mais que Deus faz, a salvação é centrada em Deus e em sua glória, e não nos benefícios do homem.
Se, em nosso entendimento desta maravilhosa doutrina da salvação, a ênfase for colocada nas bênçãos que o homem recebe, e não na glória de Deus, o nosso entendimento é falho e devemos buscar as bênçãos de Deus para que Ele nos endireite para adorarmos a Ele como Ele deseja, em espírito e em verdade (Jo 4:24).
2º - A Escolha de Deus na Salvação
Sei que nem todos os crentes crêem em tudo o que este estudo apresenta sobre eleição. Temos consciência de que existem explicações diferentes sobre o tema Salvação.
Mas, mesmo assim, é esperado que os crentes creiam em algo sobre o assunto. A Bíblia trata da Salvação sem confusão. Muitos pensam que mexer com este assunto de eleição é comprar uma briga.
Outros ainda ignoram o assunto por inteiro como se fosse uma parte das coisas encobertas de Deus e que Ele não quer que ninguém trate do assunto (Dt 29:29).
Todavia, como presbiterianos que somos, temos que expor o que a Bíblia diz sobre isso e, mesmo não entendendo tudo sobre Deus, é preciso crer pela fé naquilo que está revelado divinamente pela Palavra de Deus.
Este deve ser o mínimo esperado de um estudo bíblico. Devemos nos lembrar: — tudo o que está revelado na Bíblia pertencem a nós e a nossos filhos (Dt. 29:29)
E devemos nos lembrar de 2Tm 3:16-17 que diz — Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
O simples fato de que existem pessoas salvas entre a multidão dos espiritual e moralmente incapacitados; que existem vivos entre os mortos em pecados e ofensas; que existem pessoas que querem agradar a Deus entre muitos incapazes, que somente procuram os prazeres do pecado; isso é prova definitiva de que existe uma força maior do que os homens crentes operando para salvá-los.
Essa força opera segundo um poder fora do homem. Esse poder opera segundo uma determinação que não pertence ao homem.
E essa determinação é a própria vontade de Deus (Ef 1:11). A vontade soberana de Deus que é revelada nas Escrituras Sagradas em certos termos.
E o termo que estipula a ação da eterna vontade de Deus em determinar quem entre todos virão a ser salvos é ELEIÇÃO.
De que maneira entenderemos, pelo estudo, a eleição de Deus, é uma questão bíblica, e não é, de forma alguma, uma invenção de nenhum teólogo humano.
3. O Significado das Palavras Bíblicas: ‘eleito’ e ‘escolha’
Convém ter um entendimento da terminologia que Deus usa na Bíblia no tratamento desta doutrina. Existe a palavra ‘eleito’ tanto no AT (4 vezes somente: Is 42:1; 45:4; 65:9,22) e, no NT (27 vezes junto com as suas variações: eleição, escolhido).
Entretanto, onde a palavra ‘eleito’ é usada, tanto no AT quanto no NT, significa sempre a mesma coisa: escolhido, preferido, predestinado - por Deus.
A palavra hebraica é traduzida, na maioria dos casos, por ‘eleito’. Mas é também traduzida, em português, umas quatro vezes, por ‘escolhido’ (1 Cr 16:13; Sl 89:3; 105:6; 106:23).
A palavra em grego traduzida por ‘eleito’ no Novo Testamento (27 vezes) é também traduzida por ‘escolhido’, com a suas variações, (Mt. 20:16; Mc 13:20), "eleitos que escolheu" (João 13:18; 1 Co 1:27; Ef 1:4).
Somente com um olhar ao significado desta palavra ‘eleito’, como ela é usada pelas Escrituras Sagradas, podemos entender que a eleição é uma escolha, uma escolha feita por Deus.
4. A Natureza da Eleição
Desde que a Bíblia trata dessa escolha abertamente, não temos que chegar a uma vaga conclusão, deduzida por termos abstratos, definida por emoções, preferências doutrinárias, ou por mera simbologia.
Essa escolha é descrita pela Bíblia. Por ser descrita biblicamente não é necessário ter dúvidas sobre a natureza da eleição.
5. A eleição tem origem em Deus
É claramente estipulada biblicamente que a eleição origina-se em Deus. Os que crêem em Cristo são feitos filhos de Deus e salvos, mas NÃO se tornam eleitos pela fé.
Este novo nascimento não é, na sua origem, do sangue ou da carne do homem, mas de Deus. Jo 1:12,13 diz — Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
E Rm. 9:16 acrescenta — Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.
Estes que querem vir a Deus e crer em Cristo, vêem e crêem porque foram dados a Cristo pelo Pai, em primeira instância, antes da existência do homem, antes da fundação do mundo.
Jo 6:37 — Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.
Ef 1:4-5 — assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,
Pelo fato de serem dados a Cristo pelo Pai, temos uma prova clara de que existia primeiramente a determinação, e essa determinação de Deus é a origem de qualquer ação positiva feita pelo homem para com Deus.
Essa determinação NÃO foi do homem, mas de Deus (Jo 6:37). Porque a eleição foi motivada primeiramente por Deus, Cristo pôde declarar: — Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós (Jo 15:16).
Realmente, se marcássemos na da Bíblia cada um dos casos em que Deus age soberanamente com o homem, cada uma das declarações que determinam que a eleição e os seus frutos são de Deus e cada ilustração ou parábola, que mostram que a eleição é a operação usual de Deus, entenderemos que quase todos os livros da Bíblia atestam que a eleição é de Deus pela Sua graça.
Considerando todas essas passagens bíblicas, verificamos que o homem não pode ajudar a Deus nessa escolha, pois o homem é incapaz de fazer qualquer coisa boa e, realmente, apenas maquina pensamentos maus continuamente (Gn 6:5; Jr 17:9; 13:23; Rm. 3:23).
Justamente porque a eleição vem primeiramente de Deus, os cristãos têm forte razão para adorar e louvar a Deus eternamente. É isto que o Apóstolo Paulo enfatiza na sua carta aos Efésios 1:3-4 — Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor
6. A eleição é Incondicional
A natureza dessa escolha é descrita pela Bíblia também como sendo incondicional. Isso não quer dizer que a salvação não tem condições, pois as tem (e todas elas são preenchidas pelo sangue de Cristo, (Ef 2:13; 1 Pedro 1:19,20), mas, não estamos tratando agora do preço pago na salvação, mas SIM da escolha que Deus fez PARA a salvação.
Dizendo que a eleição é incondicional, devemos entender que aquela escolha que Deus fez antes da fundação do mundo (Ef. 1:4), não foi baseada em algo que existia anterior ou poderia existir posteriormente no homem.
Isto é, não há nada que se originou no homem que poderia ser interpretado como sendo uma condição que induziu Deus a escolher.
A condição da eleição não foi o conhecimento divino de que o homem aceitaria a salvação se ela fosse apresentada a ele. NÃO, de jeito nenhum!
No homem, não existe nenhuma coisa boa. Paulo diz em Rm 7:18 — Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum.
E, não habitando nada bom em nós, não existe nada em nós para atrair a atenção salvadora de Deus, nem algo que poderia dar ao Senhor uma predisposição a escolher o que era bom (Jr 13:23).
A condição da escolha primária NÃO foi do homem, mas de Deus que escolheu o homem "para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1:5,9,11).
A condição da determinação primária de Deus foi pelo querer de Deus, e não por nenhuma justiça real, ou provável, que o homem poderia ter, intentar ou desenvolver. Is 64:6 diz que são — todas as nossas justiças como trapo da imundícia.
Se o homem tivesse qualquer condição favorável que o destacasse diante do favor de Deus, aquela condição faria Deus ser obrigado a conceder-lhe a salvação.
Isso faria a salvação ser pelas obras, ou pelas condições humanas, e não segundo a graça; o beneplácito da vontade divina.
A eleição, tanto quanto a salvação, é puramente pela graça: um favor divino, desmerecido ou imerecido pelo homem (Rm. 11:5,6; Ef 2:8,9).
Foi, portanto, uma escolha puramente divina e graciosa em salvar um homem que não tinha nenhuma condição boa para se apresentar diante de Deus com um mínimo de mérito qualquer.
Deus preferiu um pecador particular para receber a Sua graça somente porque quis. Rm 9:15,16 — Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia.
Somente entendendo tudo sobre a vontade de Deus, algo que não podemos nunca atingir, entenderemos por completo por que Deus escolheria um homem tão depravado, que não possuía nenhuma capacidade, e, portanto, nenhuma condição, para atrair a atenção de Deus.
Mas, de fato, conforme a Bíblia, foi isso o que Deus fez. A escolha de Deus por Israel para ser o Seu povo revela essa atitude (Dt 7:7) e a escolha de Deus para a salvação é da mesma natureza (Jo 1:12,13; Rm 3:18-23; 9:15,16).
Devemos resumir esta parte da natureza da eleição como Jesus a resumiu: — Sim, ó Pai, porque assim te aprouve (Mt 11:26).
Amém

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